As primeiras comunidades humanas eram seguramente matriarcais; a força mística originava-se da Mãe-Terra. O culto à fertilidade refletia a vida cotidiana e os anseios das sociedades agrícolas, cuja expectativa básica era o germinar das sementes e o florescer dos alimentos. Os ritos, hoje ditos pagãos, sempre tinham a mulher como centro do poder mágico, divinatório, refletindo o mistério do seu dom natural de gestar, gerar e alimentar. As primeiras esculturas conhecidas na história, que eram imagens de culto, foram as opulentas Deusas de Fertilidade.No catolicismo, o culto a Sant'Ana reproduz esse sentimento ancestral da relação do poder gerador da terra com o da mulher e, ao mesmo tempo, encarna outro culto da Antigüidade, que é a reverência aos antepassados, ao conhecimento que se transfere de geração para geração, por isso denominada de ‘Mestra’ ou ‘Guia’. De sua descendência nasce o Salvador da Humanidade, como da semente nasce o trigo e a uva, que geram o pão e o vinho, os alimentos que mantêm a vida: o corpo e o sangue do Cristo. Sant'Ana é sempre representada como uma mulher madura, serena, transmitindo seu conhecimento ou guiando a Virgem Maria pelas mãos, quando não a traz no colo. O fato de gerar a mulher que redimiria os seres humanos do pecado original cria uma contraposição às mulheres pagãs, que o poder católico execrou e queimou como bruxas nas fogueiras públicas. Não é à toa que o culto a ela se incrementa e vem a ser oficializado na Idade Média. O culto a Sant'Ana é, portanto, de origem telúrica e popular, não faz parte das Sagradas Escrituras. É uma das apropriações que o catolicismo fez dos ritos populares, no caso dos rituais de semeadura, em que se pedia que a terra, a Grande Mãe, fosse profícua e fértil. No Brasil a empatia por essa santa foi grande. Para os homens que se lançavam solitários em terras desconhecidas, deixando longe suas famílias, nada mais apropriado que o culto à Grande Mãe ancestral, de tal modo íntima ao inconsciente coletivo, que seu título e nome se fundiram numa palavra única, carinhosa e simbólica: Sant'Ana.

 

 


  Sant'Anas - Coleção Angela Gutierrez info@santanas.org.br