A título de exemplificação, transcrevemos a seguir parte do texto que publicamos na revista Barroco*, com a colaboração do pesquisador Orlando Ramos Filho. De forma abrangente, nele se comentam certas particularidades estilísticas ocorridas, em períodos distintos, no universo da imaginária brasileira.


Até por volta do último quartel do século XVII, a estatuária produzida em solo brasileiro traduzirá os ideais estéticos renascentistas, mantendo a imobilidade, a rigidez, a solidez e estruturação geométrica do século XVI. A escultura é mais marcante que a do período anterior, mas de composição simples, estática e abaulada, quase não se observando a forma do corpo sob a indumentária. O fio de prumo desce da cabeça ao meio dos pés e as figuras são imponentes e gordas, simplificadas e com atitudes frontais. O pequeno movimento existente está localizado nos joelhos e braços.

A partir de aproximadamente 1690, a estatuária começará a se transformar, abandonando definitivamente a sua forma hierática, hirta, para enfim assumir o espírito barroco. O corpo começará a movimentar-se, com o panejamento já insinuando a vibração desse estilo, através da presença dos drapeados e também com a soltura no posicionamento dos braços e das pernas. A cabeça se torna mais proporcional, o entalhe mais delicado, a expressão mais emotiva, com traços fisionômicos mais suaves; a cabeleira apresenta-se perfeccionista em seus detalhes. As bases ainda são simples, aparecendo também em formas retangulares e surgindo os primeiros estáticos querubins, além de alguns elementos que sugerem almofadas.

Com uma defasagem de aproximadamente dez anos em relação ao litoral, o estilo joanino aconteceu de forma surpreendente em Minas Gerais, a partir do segundo quartel do século XVIII, por intermédio de vários artistas anônimos, destacando-se entre os conhecidos o nome de Francisco Xavier de Brito, que, com seu estilo inconfundível, influenciou uma gama de profissionais do período. Nessa fase, são assimiladas as características mais marcantes do barroco, como a composição rica, bojuda, sinuosa em S e C, com o panejamento artificial, excessivamente movimentado com suas formas esvoaçantes. As cabeleiras são elaboradas, trançadas de forma rebuscada e às vezes até com laços de fita. Os braços são movimentados, enquanto as bases monumentais se apresentam ornadas com querubins, distribuídos assimetricamente, envoltos em nuvens e volutas. A policromia tem tonalidades fortes e é variada, apresentando farto douramento, seja através do estofamento total com esgrafiados ou apenas em mancheteados, bem como pastiglios, punções e rendas metálicas.

No período rococó, absorvido em Minas a partir da sexta década do século XVIII, a escultura sacra tem como principais características a leveza, a ascendência, a afetação e a assimetria. O eixo central de composição se direciona da cabeça ao pé esquerdo (raramente ao direito); o manto é diagonalizado e nas bases os querubins são colocados aleatoriamente. Na policromia, mais contida, surgem as famosas rosas de malabar, e os tons das cores se tornam mais claros.

Por fim, no século XIX, com as devidas exceções dos artistas que ainda incorporavam os padrões rococós, como ocorreram com algumas peças baianas ou mesmo com as de José Joaquim da Veiga Valle, em Goiás, e do Mestre Valentim, no Rio de Janeiro, a escultura sacra, mais marcada pelo estilo em voga, o neoclassicismo, inspirado na arte greco-romana, reutiliza estilos anteriores, sem obter resultados plásticos muito significativos...


No que diz respeito à representação das imagens de Sant'Ana, a presença de cadeiras, com seus respectivos espaldares, é uma referência importante para a sua datação. A decoração dos espaldares apresenta traços estilísticos marcantes, principalmente nos períodos barroco e rococó.

 

 
 
 


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